Uma Luz sobre a Iniciação através do Tarô




O Universo é auto-consciente. Nele, você é co-criador, esteja consciente disso ou não. Através de padrões na criação, você pode ter uma apreensão da inteligência divina que a rege. E essa criação ocorre no eterno momento presente, ininterrupta, em perpétuo gênesis, criando momentos únicos na eternidade. 


A evolução da consciência humana ocorre especialmente pela psique. Esta pode ser identificada com a idéia de alma, no sentido de intermediadora entre corpo e espírito. A tua psique é caracterizada por uma personalidade única. Você pode facilmente conhecer uma árvore por seus frutos. Porém, mesmo que haja um conjunto de características reveladoras, cada fruto é único. Em outras palavras, por mais que existam padrões, a maneira como você percorre essa auto-conscientização tem a tua assinatura exclusiva. Assim, da mesma forma, será a tua iluminação. Ou seja, na tua caminhada por mais que você seja inspirado a se aproximar e “imitar” certos padrões macros de aprimoramento pessoal por impregnação e compreensão, a tua maneira de expressar essa luz no micro-universo da tua vida será sempre única. Então, não imagine que a ideia de iluminação implique em se tornar igual a um modelo único, em que todos se tornam iguaizinhos no final. 


Até lá, o caminho tradicional da iniciação aos mistérios ocidentais oferece o acesso a uma herança compartilhada por nossos antecessores na senda da iluminação espiritual. Dentre as ferramentas existentes nessa nobre bagagem espiritual, existe o Tarô. Ele é um ‘demiurgo’, ou seja, um divino intermediador nessa contínua criação. Ele faz a ponte entre o Macrocosmo, e o Microcosmo humano. Assim, pode-se dizer que uma vez ativado pela(s) psique(s) envolvida(s) no seu ‘jogo’, ele a(s) guia a uma iluminação por progressivas e recorrentes alterações de estado de consciência. Ou seja, ele serve de instrumento de interface entre o insconsciente e o consciente. E atenção, essa comunicação é bi-direcional! Assim, ele é um excelente meio não só de auto-conhecimento, mas também de cura. Nesse último contexto, o Tarô age como um ‘Taumaturgo’, realizando maravilhas na tua vida.  



A forma de cada carta do Tarô é retangular, na proporção de um duplo quadrado numa disposição vertical. Assim, a metade superior corresponde simbolicamente aos aspectos celestiais, e a metade inferior àqueles terrestres. Além disso, como própria expressão na dualidade que rege nossa condição humana, cada arcano tem seu aspecto passivo e ativo. Alguns têm uma predominância mais ativa, e outros mais receptiva. Horizontalmente na carta, podemos associar a metade esquerda com o passivo/receptivo e a direita com o ativo. Combinando esses aspectos espaciais na carta, temos 4 quadrantes em cada carta, e os elementos em cada um desses quadrantes é regido pelo personagem correspondente de cada canto do Arcano XXI - Le Monde (anjo, águia, leão e touro). 


A carta número 1 do Tarô de Marselha tem o nome de Le Bateleur. A tradução literal seria “O Malabarista”, “O Acrobata”. Mas se a gente observa a figura na carta, ela parece ter um ar mais “sério” do que algo meramente circense, ainda que o personagem expresse a leveza de um jogo. Existe aí uma relação ao ilusionista, daí a associação com o mágico. Como um artista nômade nos antigos mercados medievais de rua, ele usa a “mentira” da arte para falar da verdade por detrás das aparências. Ele incorpora e vive um personagem, ele joga com seus instrumentos e aprimora suas habilidades, eis sua Arte. E nessa prática individual, ele dinamiza a vida, e entrerte os expectadores.  E você, quando o contempla, se torna um deles. Mas ele expressa isso como um convite para um mundo de maravilhas ao transmutar teus estados de consciência rotineiros. É por essa sutil vivência que ele te convida para o mundo da magia, da liberdade de você poder se tornar quem você realmente é, através da descoberta e realização da verdadeira vontade do teu coração. 


Como indica um dos anagramas da palavra TARÔ, o utilizador é convidado a mergulhar em cada um dos arcanos como um ATOR ! Assim, você pode estudar, incorporar e interagir com cada personagem. Até mesmo porque, assim como em um sonho em que você vivencia, a forma de comunicação é através de imagens carregadas com um simbolismo universal, arquetípico. Assim você pode animar os personagens de cada carta, colocando-os em um movimento consciente, e isso cria uma dinâmica no teu próprio estado de consciência. Você vai se tornando tal como o Mago, passando da posição de expectador para a do Artista! Deixando de ser guiado pelo estado de consciência dos outros, para dominar e transmutar o teu próprio estado de consciência, como um alquimista. 


Nesse contexto, quanto ao estudo dos símbolos da carta I, diria que numa visão geral Le Bateleur revela o teu potencial de se tornar regente da arquitetura do teu mundo, um co-criador plenamente consciente. Ele é um arcano predominantemente ativo, que inspira ação. Observe que a última carta dos Arcanos Maiores, a XXI - Le Monde (símbolo de vitória sobre o Mundo e realização da vontade, no sentido de domínio da tua vida) revela uma figura feminina portando um bastão, de maneira “similar” ao Le Bateleur, porém simbolizando o coroamento da Grande Obra. O bastão (ou varinha) simboliza a dinâmica mental da vontade. Como dito, o gênesis é contínuo e ininterrupto, cíclico. Eis que isso é indicado por um outro anagrama: ROTA (roda, caminho).

Assim, ao organizarmos num círculo os 22 arcanos em ordem de numeração, é possível encaixar o arcano “sem número” - Le Mat entre os arcanos XXI - Le Monde e I - Le Bateleur. Assim ele se posiciona ao mesmo tempo “antes” do número I e “depois” do número XXI. Ele se interpõe entre você atuando como criador, e a tua obra. Ou seja, entre o “fim” (a finalidade) e o “princípio”; até talvez como motivo, entre o “início” e o “fim”. "Le Mat" significa literalmente “O Bruto”, “O Impolido”, seria a tendência de negação e profanação do Mundo (i-mundo)? Não tendo um número, não exprime uma medida, e nem está limitado por alguma; tendo um nome, expressa uma característica. Dessa forma, diria que em uma interpretação seria a de que simboliza um estado de caos e anarquia que precede e acompanha toda criação; visto que toda construção requer a atuação constante de uma força ordenadora, e uma vez “criada”, demanda contínua manutenção em virtude da transformação natural. Ou seja, é um princípio de mutação. Caracteriza a própria matéria (Le MAT), efêmera e em constante metamorfose.  


Dentre os 22 arcanos maiores do Tarô, 21 são numerados. A redução teosófica de 21 é 3 (2+1). Além disso, 21 é 3x 7 (número símbolo da perfeição). Assim, proponho um experimento de estudo sequencial de cada carta cercada pela anterior e pela seguinte.


Caso tenha os arcanos maiores do Tarô de Marselha à disposição, pegue as 3 cartas que citei hoje: I - Le Bateleur (algumas versões intitulam como "O Mago"); XXI - Le Monde; e Le Mat (algumas versões numeram como 0, e intitulam "O Louco", o que não é exato, mas não importa aqui). Obs.: Claro que você também pode experimentar com outro tarô de sua preferência.


Disponha-as lado a lado, na seguinte sequência:


Le Monde - Le Mat - Le Bateleur


Contemple essas 3 cartas como sendo uma única paisagem estática. O foco aqui é a carta central. Nesse caso, Le Mat. O que ela lhe conta? Agora anime a paisagem formada pelas três cartas, e descreva uma história. 


No próximo post, começarei compartilhando o meu resultado desse experimento.



Nessa série de ‘posts’ sobre o tarô, eu vou compartilhar progressivamente um pouco da minha leitura atual do simbolismo de cada um dos 22 arcanos maiores do Tarô de Marselha, fazendo alguma relação com a senda iniciática, e especificamente aquela veiculada pela autêntica tradição Ogdoádica. Assim, não explorarei o aspecto divinatório, o que já é amplamente exposto por diversos utilizadores do Tarô. Porém, é claro que poderá útil também nesse sentido, propiciando novos lampejos de interpretação na tua divinação.


Eu me servirei do Tarô, que na verdade é um "ser", como medium vivo entre eu e você, meu caro leitor, e minha estimada leitora.


Ele talvez te inspire e te ajude a reativar a tua memória divina através da dinamização de símbolos que foram depositados em tua psique pela arquitetura do Universo para que você reconheça a trilha do retorno ao mundo espiritual, mesmo ainda estando fisicamente aqui e agora.


Eventualmente também te conduzirá a uma inspiradora oportunidade de se apresentar aos portais da Iniciação nos Mistérios Ogdoádicos promovidos pela Sociedade da Luz Vivente (S.L.V.)

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