Em busca do fogo primordial




Apesar da nossa ânsia por respostas,

a chave para o auto-conhecimento é descobrir “A pergunta”. 


E diante de cada pergunta ao Tarô, sem mentir,

ele jamais conta duas vezes a mesma história. 

Refrescante como cada nascer do Sol, ele ilumina

cada questão com novas nuances de percepção.

   De costas para Le Monde ele se volta ao profano rumo a uma ação arbitrária. 

   Naturalmente, nesse percurso, se estabelece o Le Bateleur Le Mat, em seu devaneio, esnoba a sua presença. Aquele, por sua vez, observa a força que o impulsiona. E com sua Arte, ele atua sobre ela. 

   A soma dessas 3 cartas é o número correspondente ao total de cartas dos Arcanos Maiores: 22.  Assim, expressam a história central ! 

   A nível macro, o Le Mat se interpõe entre Le Bateleur e a realização da sua Grande Obra de reintegração representada pelo Le Monde

Fig.1 Cartas de um dos tarôs ditos "de Marselha" de 1701-1715, versão arquivada na Biblioteca Nacional da França. Nessa versão, o Le Mat é intitulado de Le Fol ( O Louco ).

   O Le Mat, a nível pessoal, representa o indivíduo ainda não Iniciado, o ingênuo, o “bobo” (termo associado com o coringa do baralho).

   Como força, caracteriza o devaneio pensativo causado pelo esquecimento da sua memória divina. Essa inconsciência rege a vida do indivíduo, errante. Mesmo que eventualmente sinta nostalgia de um fogo primordial (simbolizado pelo quadrante correspondente à águia), ele é impulsionado pelo sensorial.

   Posicionando-o entre os arcanos XXI e I, ele simboliza o dinamismo da viagem em si. Ele parece chegar ou partir? Sabe de onde vem ou para onde vai?

   Fazendo uma comparação com a encarnação, esse arcano mostra que ao cruzar o portal do Mundo, você traz uma pequena bagagem essencial do passado, uma tênue memória essencial.

   Ele não se atenta a isso, e inconscientemente parece agir como se a ignorância fosse uma benção. E parece que nesse estado ele é até mesmo incapaz de acessar o conteúdo da sua bagagem que permanece lacrada na vara horizontal que carrega em seu ombro. A horizontalidade do mundo pesa como um fardo em suas costas, e ainda que se mova, ele não consegue ficar ereto. Como ela está "atada" à sua veste, mesmo que ele se virasse para todos os lados, não alcançaria o saco fechado na ponta. É como se a “armadura” que o protege também encobre a verdade que ele almejaria encontrar se buscasse, mas para encontrar precisaria se despir. E ele faz uma viagem desconhecida que deve findar por uma auto-descoberta de que tudo estava sempre ao seu lado desde o início. 

   Assim, sem saber de onde veio, nem para onde vai, uma força externa inferior o impulsiona, começando a rasgar o invólucro. A figura que o impulsiona sugere a forma de um animal, mas não é exatamente. Seria o personagem central do Le Mat movido por instintos inferiores, provenientes de uma parcela da desintegração da coroa do Le Monde?

   Ele utiliza parcialmente o outro bastão como suporte mundano, o que mais uma vez não inspira leveza nem verticalidade. 

Le Bateleur dispõe de uma sacola aberta sobre a mesa e começa a analisar o seu conteúdo, fazendo novas sínteses com ferramentas a seu dispor.

   A figura central do Le Monde está despida e detém um saco na mão. Além disso, ela parece refletir a figura do Le Bateleur. Além do bastão que portam, se olhássemos de perto seus traços faciais sugerem uma mesma identidade compartilhada entre ambos os personagens. 

   Isso lembra a associação feita por William Shakespeare em “A Tempestade”,  entre o mago Próspero e Ariel (feminina). A mulher que aparece no arcano Le Monde parece flutuar e o véu sugere algo aéreo.

   No remake cinematográfico (2010) de “A Tempestade” uma atriz representa Próspera, e Ariel passa a ser masculino. Além de expressar um manifesto "contra" mentalidade patriarcal da nossa sociedade quanto à liberdade do exercício da livre vontade e manuseio do poder, isso também expressa a complementaridade entre os aspectos masculino (animus) e feminino (anima) como explicados por Jung. No final dessa versão, os seus rostos são colocados lado a lado, sendo possível perceber a associação de identificação dentre os personagens Próspera e Ariel, como sendo níveis de um mesmo indivíduo. 

   No próximo post prosseguiremos focando na carta Le Bateleur. Dessa forma, proponho o exercício de estudo e elaboração da tua história para 3 cartas posicionadas da seguinte forma:


Le Mat - Le Bateleur - La Papesse

   Como transição, sugiro também a reflexão nesse texto:



Parece um tanto inquieto, 

como quem sente medo. 

Criai ânimo!… 


Como te preveni, 

eram espíritos todos esses atores; 

dissiparam-se no ar, sim, no impalpável ar. 

E tal como o grosseiro substrato dessa nossa vista, 

as torres que se elevam para as nuvens, 

os palácios altivos, 

os templos majestosos, 

o próprio Globo imenso, com tudo o que contém, 

hão de sumir um dia, 

como se deu com essa visão tênue, 

sem deixarem algum vestígio. 


Somos feitos da matéria dos sonhos; 

e nossa pequenina vida,

é cercada pelo sono. 


Trecho da fala do Mago Próspero em “A Tempestade” de William Shakespeare.

https://youtu.be/KFNTAsC8qQ0



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