PRONAUS

 

CARTA II

O AMOR 

SUPREMO REGENERADOR 

 

 

 

Em nossa profana condição humana, em virtude da busca ilusória em ir mais longe na autossuficiência por meio do materialismo, a memória do amor divino é cada vez menos diretamente acessível, sendo assim mantida em seu inato estado latente, inconsciente, pode-se dizer: em esquecimento de fato. 

 

Contudo, esse amor é o maior e mais antigo atributo manifestado na criação por Deus, através do qual, ele ordenou o caos e manifestou todos os seus outros atributos, e assim continua sendo na manutenção da harmonia. 

 

No contexto desse contínuo gênesis, a Societas Lucis Viventis “surge” no auxílio da reativação dessa memória anímica por meio do despertar da luz do Intelecto através das iniciações tradicionais, guiando o iniciado na jornada sagrada do retorno à suprema unidade divina, o Bem ilimitado.

 

A matéria, o corpo e o amor físico podem se tornar um obstáculo apenas quando nos limitamos a tal nível. Vários são os episódios em mitos que descrevem os aspectos e consequências relacionados a essa limitação humana. Ou seja, podemos usufruir de tais prazeres, porém sabendo que não são fins, mas uma eventual etapa. E a dedicação no desenvolvimento de qualidades como a moderação e a temperança nos permitem ascender mais facilmente a outros níveis do amor.  

 

O livre-arbítrio é um dos principais aspectos da alma humana, e o discernimento equilibrado só é possível através da relação harmoniosa entre o intelecto e a vontade, com aquele iluminando e inflamando esta com a sua luz, que é a do divino amor racional. Daí pela chama da necessidade, a inflamada vontade humana se volta para o intelecto com desejo de unir a ele através desse amor fulgurante, revelando na alma a sua verdadeira vontade, a de seguir com amor a lei do intelecto e alcançar o Ser, atingindo assim a perfeita liberdade. Esta vive na plenitude do amor ao conhecimento motivado pelo conhecimento do amor.

 

Dessa forma, a verdadeira vontade é a inclinação da inteligência para o Bem, e o amor se estabelece mediando o caminho como elo e ponte entre o intelecto e essa vontade. O intelecto como cadinho de todas as coisas verdadeiras alimenta a alma com verdade (seu nutriente), através desse amor que a atrai rumo à luz inteligível a partir do desejo amoroso proveniente de sua vontade por bem compreender o Belo (o Bem), fonte do intelecto. Nesse sentido, o amor se expressa como o desejo pela união mística com o Belo, e então surge o Prazer, que é a Satisfação do desabrochar da Vontade no Bem.

 

Na visão neoplatônica cristã de Ficino a ordem universal é estruturada da seguinte forma:

 

 

DeusUna verdade inteligível

Deus

Plena claridão

Bem

Anjo

Intelecto

Mente Angélica

Estrelas

Ideias

Alma

Vida racional imortal

Anima Mundi

Lua

Conceitos

Espírito

Instrumento

Natureza

Ar etérico

Formas seminais

Corpo

Receptáculo material mortal

Matéria

Sombra obscura

Formas corporais

 

 

Por amor divino, as ideias emanam do Bem para preencher a Mente, e atraí-la de volta para o Bem (Deus). E assim adiante: os Conceitos por parte da Mente com relação à Alma, as Formas Seminais da Alma para com a Natureza; e enfim, as formas corporais da Natureza diante da Matéria.  

 

Deus é Bom ao criar (início), é Belo ao atrair (Meio) e Justo ao reintegrar (Fim).  Simbolicamente, Deus poderia ser representado por um ponto, centro de 4 círculos circunscritos. Cada degrau, no sentido da emanação, é regido por um nível descendente de amor. E no sentido de ascensão, por um nível descendente de necessidade. Dessa forma, Deus é a maior fonte de Amor, e não tem qualquer necessidade, sendo autossuficiente. 

 

No aspecto da criação, a alma foi criada por Deus, e não pelo Anjo. Em sua descida, como centelha divina, a alma se projetou na criação tentando ser autossuficiente por si, almejando assim se igualar a Deus, mas isso só é possível Nele, sendo impossível apartado Dele. Daí surge na alma a necessidade da luz divina, pois a sua luz isolada não é suficiente. 

 

Nesse sentido, a alma compreende seu papel demiúrgico. Ocupando uma posição central na ordem universal, ela é o eixo de exercício da Grande Obra de divinização da matéria, assim como do sagrado retorno. Retorno esse possível através do Amor anímico através desses 4 círculos da Beleza culminando por Justiça no êxtase divino. Da Beleza (impulso) ao Amor (movimento) rumo à Satisfação (repouso).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Considerando o meio e os extremos da ordem universal, pode-se estabelecer a seguinte correspondência: 

 

 

Deus

Sol

Masculino

Alma

Lua

Andrógino

Corpo

Terra

Feminino

 

 

 

Microscosmo humano

 

 

Kether

Yechidah

Atziluth

Corona Flammae

Stephanos/

Arche

Kudos

Espírito

Psique

Deus

Eu Superior

Chokhmah

Chiah

 

Noesis/ Logos

Eleos

Anjo

Binah

Neshamah

Uncia Coeli

Sophia

Dike

Daat

 

 

Flos Abysmi

Gnosis

 

 

 

 

Chesed/

Gedulah

Ruach

Briah

 

Doxa

Pneuma

Alma

Alma

Eu

Inferior

Geburah

 

Dynamis

Tiphareth

Orbis Solis

Kalon

Netzach

Yetizirah

 

Nike

Hod

 

Lamprotesis

Yesod

Nephesh

Cornua Lunae

Asphaleia

Sarx

Espírito

Malkuth

Guph

Assiah

Instita Esplendens

Basileia

Soma

Corpo físico

Corpo físico

Corpo físico

 

 

 

 

Teologia do Templo 

(Casa do Sacrifício)

 

 

 

Átrio externo – Material

 

 

Pronaus

Treinamento preparatório

Corpo físico

Corporis

Soma

Guph

 

 

 

Díade (pórtico) – Anímica

 

 

1a Coluna

Princípio do Sopro

Alma Racional

Anima

Pneuma

Ruach

2a Coluna

Princípio do Corpo

Alma Emocional instintiva

Corpus

Sarx

Nephesh

 

 

 

Tríade – Espírito

 

 

1o vértice (base esq.) da superestrutura triangular

Princípio da Justiça

(topo da coluna esquerda da árvore da vida: rigor)

Força Maternal do Espírito

Justicia

Dike

Neshamah

Binah

Anjo

(andrógino)

2o vértice (base dir.) da superestrutura triangular

Princípio da Misericórdia

(topo da coluna direita da árvore da vida: misericórdia)

Força Paternal do Espírito

 

Clementia

Eleos

Chiah

Chokhmah

3o vértice (ápice)

da superestrutura triangular

 

Princípio da Glória

(topo da coluna central da árvore da vida: amor)

Quintessência

da centelha divina individual

 

Candor

Kudos

Yechidah

Kether

Deus

 

 

 

 

Saga Heroica do Iniciado

 

 

Grau de ascensão

Aspecto principal 

da Grande Obra

Símbolo macrocósmico inferior

Teologia Platônica cristã

Teologia do Templo

(Casa do Sacrifício)

Nível

dos Mistérios

1o grau

receber inspiração 

do sopro racional

(nigredo)

Terra (Malkuth/

Basileia)

Corpo

Pórtico 

(Átrio do Pronaus)

Exterior

(inferior)

2o grau

harmonizar 

o corpo astral emocional

(albedo)

Lua 

(Yesod/

Asphaleia)

Alma

Espaço santo (Temenos)

3o grau

limiar do adeptado: gnose

dedicar-se ao espírito em sua corporal união mística 

(rubedo)

Sol 

(Tiphereth/

Kalon)

Deus

Santo dos santos (Telesterion)

Interior

(superior)

 

 

Na arte bizantina e da renascença italiana a Anunciação é uma rica representação simbólica da tradição ogdoádica sintetizando, em seu aspecto esotérico, a iniciação no caminho sagrado do retorno. 

 

Maria (a alma emocional-instintiva) convocada pelo amor divino por intermédio do Anjo (a mente inteligível: instrumento divino) recebe o sopro racional (columba branca) diretamente de Deus (o Bem) iniciando a senda da regeneração (simbolizada por figuras geométricas reportando ao número 8) pela gestação do verbo (movimento anímico) racional.   

 

 

Anunciação

 

 

Deus

Yechidah

Masculino

Pleno doador

Verdade inteligível

Bem supremo

Anjo

Chiah/Neshamah 

(andrógino superior)

Andrógino

Intermediário superior

Intelecto

Ideias

Columba branca

Ruach

(sopro do espírito)

Masculino

Vitalizador

Alma racional

Conceitos

Maria

Nephesh

(andrógino inferior)

Feminino fértil

(gestação masculina)

Prima Mater

(matéria virgem)

Intermediário inferior

Alma emocional-instintiva

Formas seminais

Templo

Guph

Feminino passivo infértil

(matéria estruturada)

Pleno receptor

Corpo físico

Formas corporais

 

 

 

Muitas vezes o Anjo é representado vestido com um robe externo vermelho, e outro interno índigo, enquanto que Maria com um externo índigo (ou negro) e um interno vermelho. No espectro visível da luz branca, a cor rosa-púrpuro (cor simbólica do amor mais elevado) é a de energia e vibração mais elevada, seguida pela índigo (associada com Neshamah, e o preto está relacionado com seu aspecto planetário), enquanto que a vermelha é a de energia e vibração mais baixa. Isso simboliza o sentido de descida do Anjo (mente intuitiva) do superior ao inferior, assim como a direção de ascensão de Maria do inferior rumo ao superior, sob a égide de Neshamah (rumo à maturidade) simbolizada pelo manto escuro.  

 

O corpo é o cadinho (recipiendário) da Grande Obra alquímica. Na ascensão do caminho sagrado do retorno o preto (nigredo) passará ao branco (albedo), e enfim, o branco ao vermelho (rubedo).

 

 

1o grau

Nigredo

Luz latente oculta

Impregnação e Gestação

Purificação

2o grau

Albedo

Maturação do corpo de luz branca

(espectro de 7 cores)

Nascimento e Crescimento

Iluminação

3o grau

Rubedo

União mística com o Intelecto pela Gnose

(a luz mística no sangue)

Sacrifício e Ressurreição

Regeneração

 

 

É comum em representações da renascença italiana de Maria com o Cristo criança, haver no manto (muitas vezes no capuz) a estrela de oito pontas (luz do oitavo céu, do firmamento, de Neshamah), marca da maturidade da mente intuitiva no processo de iluminação (a criança solar). 

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